quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A virtude e Razão de Dizer Não

Não podemos deixar de publicar  um Documento que foi elaborado pela Comissão Diocesana de Justiça e Paz de Setúbal.
Todos sabemos que Setúbal atravessa uma situação muito dificil, assim como também Portugal e esta Europa em que já vamos tendo muita dificuldade em acreditar.
O que se irá passar nos próximos meses ?
Com todas estas interrugações é importante lêr este Documento.
Aqui fica pois para vossa reflexão e pedido de divulgação.

JPaz
Comissão Justiça e Paz
Diocese de Setúbal


A VIRTUDE E RAZÃO DE DIZER NÃO

A crise, o pessimismo e a responsabilidade dos cristãos

Os portugueses e boa parte dos cidadãos europeus (os 99% que não acumularam em suas mãos a riqueza!) continuam a viver situações de profunda incerteza face ao futuro que os espera. As crises financeira, económica, social e ética, vão perdurar não sabemos por quanto tempo mais. E de facto todos os dias surgem mais motivos para preocupação como aconteceu nos últimos dias entre nós portugueses.

Vivemos  uma situação de emergência nacional – sabemo-lo e até assumimos algumas responsabilidades -  mas não temos o direito de nos deixar vencer por pensamentos negativos.  Neste contexto os cristãos têm uma responsabilidade particular que advêm do facto da sua adesão a Jesus Cristo . O Mestre veio ao Mundo para que todos os homens e mulheres vivam, e vivam em abundância, e deu aos Cristãos a missão de lutar pelo bem de todos, com especial preocupação com os mais pobres e excluídos da sociedade por várias razões.

A Doutrina Social da Igreja tem dado directrizes bem concretas aos cristãos. A Gauidium et Spes (63) considera o homem o autor, o centro e o fim de toda a vida económica e social e a Enc Laborem Exercens marca uma posição inequívoca do Trabalho sobre o Capital, o que é bem esquecido na vida actual. E é necessário e urgente educar os consumidores para o uso responsável do seu poder de escolha, a formação de um alto sentido de responsabilidade nos produtores e, sobretudo, nos profissionais de comunicação, além da necessária intervenção das autoridades públicas, dizia-se na  Centesimus Annus (36.

Assim, neste período de intensa crise, ouçamos S. Paulo na sua carta a Timóteo ( 2 Tim 4.2) : “Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino"

A Fé dos cristãos exige participação activa na vida da «polis»

A vida do cristão não se circunscreve aos actos do culto, à participação em cerimónias religiosas ou em orações, mas tem de envolver-se, trabalhar com os irmãos e lutar pela justiça em todos os palcos da vida.

Em tempos de crise e de dificuldades os cristãos são ainda mais necessários, fazendo da Esperança uma virtude estratégica e assumindo as exigências da Caridade que se enraíza na sua Fé de seguidores de Jesus Cristo com o mandato de contribuir para um mundo melhor.

Assim devem denunciar com veemência as causas da crise que assola o mundo e , em especial o nosso país, reagindo contra o poder absoluto dos mercados financeiros e contra o conluio dos poderes políticos.

Teremos de – porque o sentimos também e por imperativo da nossa Fé – que reagir contra o facto de sermos tratados como números, de sermos objecto dos esforços para manter um sistema injusto e cruel dominado pelo que se designa de “mercados”.

Não podemos ser indiferentes aos atentados à democracia, à perda da nossa intimidade, à atrofia da nossa liberdade, tudo em nome da manutenção dum sistema que está dando provas de ser gerador de desigualdades, de ser um “rolo compressor” das classes médias e fazendo aumentar a pobreza. De estar impregnado de corrupção e dum conluio mais ou menos evidente, do poder político com o poder financeiro e especulativo.

As juventudes dos países nos variados continentes estão tomando consciência de que o seu futuro está em risco apesar de terem adquirido uma formação, apesar de terem mais conhecimentos e apesar de pouco terem participado na génese desta crise verdadeiramente civilizacional.

Têm direito à nossa compreensão, ao nosso apoio e à nossa colaboração nos esforços de tentar mudar o paradigma em que estamos envolvidos.

Exortações da Comissão Justiça e Paz

A Comissão Justiça e Paz de Setúbal exorta por isso todos os cristãos, mas também todos os cidadãos que não se deixem “adormecer” com as dificuldades do tempo presente. Sejam positivos e contribuam com tudo o que tiverem ao seu alcance para minorar ou eliminar o sofrimento humano que estes tempos estão a gerar, não com “caridadesinhas” , mas com denúncias e proposta de mudanças de vida que sejam germe de mudança de sistema.

Nestes pressupostos não devem os cristãos aceitar todo o conjunto de medidas e sacrifícios que o “poder”, seja ele qual for, quer impor. Há limites que não podem nem devem ser ultrapassados. Há valores que têm de ser respeitados. A repartição dos sacrifícios deve ser de tal modo que quem pode mais deve contribuir mais, quem não pode deve estar liberto de obrigações e ser ajudado

Dizer não, em voz alta, mesmo de forma ruidosa, é um direito que assiste a todos os que se sentem ofendidos na sua dignidade e àqueles a quem são retiradas possibilidades de vida digna.

Que a pergunta de Deus, referida no Géneses, “Que fizeste do teu irmão?” impulsione cada um de nós a tornar-se cidadão activo, colaborador duma luta necessária para que possa haver uma mudança de paradigma, um verdadeiro “Mundo Novo”.


Setúbal, Novembro de 2011

Comissão Justiça e Paz da Diocese de Setúbal

Sem comentários:

Enviar um comentário